29.5.04

o telefone tocava desesperadamente e eu corri pra atender:
- alô?
...
fim.

e quando eu pus o fone no gancho perdi definitivamente o contato. definitivamente é uma palavra demasiadamente forte. vou dizer que por um longo tempo, entonces.
mas não adianta nada mentir.
o céu está todinho estrelado lá fora e eu continuo aqui dentro solita. e essa maldita falta de comunicação, timidez e incapacidade de falar...
onde estão meus amigos?
eu até consigo vê-los sentados lá do lado daquele portão ou jogando bola, ou falando abóbrinhas na sacada do bruno. e eu vou ficando por aqui...
e as minhas duas amigas?
estão namorando. mas assim que elas brigarem com seus amores virão me procurar, me falar e pedir quase exigindo uma solução. e eu vou dar.
mas agora não tem ninguém aqui. só a minha mãe lá na sala vendo tv, que por mais que eu tente, não consigo vê-la como uma companhia: estar em casa com ela é a mesma coisa que estar em casa sem ela.
e eu já estou começando a perder a vontade de sair. a vida inteira eu andei sozinha, há três anos descobri a felicidade, mas agora parece que essa está sucumbindo aos pouquinhos.
vou esperar até a próxima festa, até o próximo show, até o próximo chat. mas e se demorar muito?
eu não consigo conversar...
e se eu fosse até lá? bem, não teria jeito de voltar, eles me cobrariam pelo menos uns cinco pilas. é que nada é de graça nesse mundo.
também não é gratuita essa minha solidão nos fins de semana e nas sextas-feiras à noite. a minha falta de comunicação paga por isso e pelo visto muito bem até. a minha casmurrice de quase sempre, esse fecho na minha boca e essa garrafa dentro da qual estou socada. essa bolha que me envolve.
mas o mundo vai além das paredes do meu quarto. e eu vou sozinha descobrir a sua dimensão.
mas eu não quero mais.
atenção: a luciana quer ser mais sociável e um pouco menos bicho do mato a partir de ontem.

música de fundo: polvo - fast canoe

26.5.04

as marquises molhadas e grandes gotas de água caindo dos telhados, molhando aqueles que passavam alvorotados e apressados por se esconderem das nuvens carregadas no céu.
e eu ia me molhando e tremendo, tremendo por dentro.
tremendo de coisa boa, como quando se escuta uma bela música, se lê um bom livro ou se vê "aquela" pintura.
mas não.
era eu em devaneios em r. e/ou r. e também já houve r.
e risos em risos.
mas aí são mais tremeliques... e platonismo, muito platonismo...

23.5.04

e nesse frio não são só as mãos que ficam geladas. os pés também. o corpo também. a alma também.
e o amor, bem esse aí até se perdeu num mar de gelo.
- tô com saudade.
e ponto final.
porque isso já não significa muita coisa; quase nada.
porque cada vez eu consigo sentir menos a presença, sentir menos a ausência.
há alguns minutos eu já nem me lembrava mais... se não fosse por essa música, que não tem nada a ver com o assunto...
e eu não tenho mais tempo pra resolver. nem calma e, até mesmo vontade já me falta.
pra resolver o quê mesmo?
i, nem sei...
e quem foi que disse que não desistiria? quem foi que disse isso e aquilo? quem foi que prometeu mesmo?
a promessa ficou vaga e pior, não foi nem cumprida.
um tempo, pouco tempo depois, esse alguém disse que não mais me ligaria e que queria perder o contato.
esse alguém não sabe mais o que dizer...
e eu para facilitar, também não digo mais nada.
nesse diz-que-diz-que eu penso em fazer "uma coisa", daí desisto, não vale a pena.
perda de tempo. eu posso ver daqui, aquela flor, dentro daquele pote sujo, nunca mais foi regada e tampouco foi posta no sol.
ficou naquele canto, cheio de teias de aranha. eu tenho medo de aranhas...
por isso, não vou tirá-la de lá. por mim ela fica. fica para trás, bem para trás... por mim eu esqueço. esqueço e ponto, mas agora eu esqueço.

e é bem agora que eu queria que alguém se interessasse por essas minhas meias 3/4 embaixo das calças... e daí poder viver, querer viver comigo uma paixão assim, dessas fulminantes. dessas só de filmes, livros e novelas.
mas que ilusão a minha! eu não sou uma pessoa apaixonante e menos ainda apaixonável.

música de fundo: cat power - sea of love

22.5.04

e eles brigam e me judiam e não sabem. e nem sabem.
e será que agora ele está na sala? ou será que ele está no quarto?
e no futuro dele? quem é que pensa?
ninguém pensa...
e eu penso nele e nas crianças do iraque.
todo mundo xinga, maltrata e outros batem. volta e meia aqueles roxos enormes nos braços, nas pernas e eu sei o que ele deve sentir.
o que ele deve sentir ao ouvir isso.
e por que será que a mãe do juliano nunca disse isso pra ele?
e por que a minha repete, repete e repete até que eu, que não tenho nada a ver com o assunto, tenha que tapar com as mãos os ouvidos, a passagem do som e gritar, gritar surdamente?
será que ela não vê?, será que não entende?
olha, sinceramente, acho que quando um macho ruim cruza com uma fêmea mais ou menos, ele pode transmitir suas maldades para ela.
e nós somos filhos de erros.
de todos os erros...
nós somos os erros.
e a minha imagem refletida no espelho é o erro. e a dela também. e a dele também.
e aos dez anos de idade, ele não tem mais solução. como eu também não tive...
e aquela fêmea foi comigo no médico, a minha cabeça doía. ela disse para o médico que queria me salvar, que eu era igual ao meu pai.
ela disse que eu era igual ao meu pai...
eu sou igual ao meu pai.
sou bagaceiro, malvado, bato em criancinhas e assedio "de leve" as... minhas filhinhas...
- olha mãe, eu não sou não! - eu queria ter dito pra ela. mas desisti, não adiantaria.
eu entro em crise às vezes.
o macho me chamava de vadia. eu tinha doze anos.
a fêmea chama sua cria menor de imprestável, inútil, entre outros nomes ainda piores, e o manda embora. ele tem dez anos.
mas ela é uma boa mulher, apesar de tudo.
e eu estou tremendo toda por dentro, não sei se de frio, de medo ou simplesmente de tristeza...

18.5.04

de dentro do ônibus o espetáculo mais bonito da terra: a paisagem fria, o frio pôr-do-dol.
e os cachorros caminhando devagar, quase a dar pulinhos sobre as pedras geladas das calçadas. e aquela gente toda enroupada.
essa é a vida do lado de fora do ônibus, do lado de fora da casa fechada, hermeticamente fechada; portas e janelas...
essa é a vida do lado de lá.
do lado de cá ela tem cor, mas não branca porque branco é feio, é apagado, é mais gelado que a própria neve branca. do lado de cá o mundo é colorido, mas não muito, escondido pelo preto...
o preto de todos os dias, o preto do funeral de todos os dias...
mas sabe que é tão lindo poder ver o pôr-do-sol azul fraco, rosa, branco e o laranja que dali não dá pra ver, e daí se sentir viva por dentro, instensamente viva!
ou nem tanto... calma, não vamos também começar a exagerar!
mas é tão triste, é tão bom mas é tão ruim ao mesmo tempo poder ver e sentir tudo isso...
não poder segurar com as mãos, ter para sempre em uma única dose eterna.
quando chove, quero chuva. quando faz sol, quero sol. mas isso por pura força do hábito da mudança... o que eu quero mesmo é ficar para sempre; poder engarrafar isso tudo e olhar do alto daquele morro no qual eu nunca subi.
e eu enlouqueço por ser forçada a saber que eu não posso ter as nuvens para mim. eu não posso ter o céu azul anil com as pontas esverdinhadas para mim, só pra mim.
e daí tudo fica horrível, mais preto, mais escuro.
eu sou impotente diante do tempo.
eu sou impotente diante das coisas.
eu sou impotente diante do querer, do fazer, do conseguir.
e não há mais nada que possa interessar mais, que possa chamar mais a atenção, que possa machucar mais.
e não sei por quê que comigo tudo tem que terminar tristemente, tão tristemente...
e é aí que eu queria que aqueles naviozinhos saíssem mesmo de dentro das garrafinhas e que tudo fosse um mar. por um segundo, por um só segundo. porque eu não gosto, mas eu quero me sentir impotente de novo, eu preciso me sentir impotente de novo...

15.5.04

presença

é preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
é preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, o trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa no ar.
é preciso a saudade para eu te sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
e eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!


(mário quintana)

e se esse meu ilustríssimo e queridíssimo conterrâneo fala sobre os ventos, sobre o tempo, as ruas, a cidade e o amor, é porque ele realmente pôde viver aqui e ter essas mesmas sensações.
e é em poemas dele como esse, que vejo que até podemos gostar dos mesmos lugares; da mesma esquina da marechal floriano com a salgado filho...
e eu que mal conseguia entender e, porquê não conseguia entender não conseguia explicar o meu sentimento quase que "indiferente"( aos olhos dos outros) de amor, eis que encontei nesse poemita a perfeição e a explicação para tudo.
ninguém consegue ser como a sua imagem. ninguém...
e imagens não morrem, só se apagam com o tempo.

13.5.04

a cabeça no travesseiro ou não.
os olhos nem bem fechados ainda e às vezes nem mesmo pouco fechados, e lá vem o sonho... ou os sonhos. é que parece um bombardeio de sonhos/pesadelos ou de pesadelos puros que chamamos delicadamente de sonhos.
e aquele soninho medonho, implacável.
muito bom seria. seria... seria se não durasse 24 horas. sonolência 24 horas.
e se eu sentar num banquinho, sou capaz de dormir.
é que o mundo não anda "grandes coisas" nesses últimos tempos.
a vida não tem sido muito legal e/ou generosa comigo nas últimas semanas.
o tempo tem passado depressa demais... as horas tem me tomado tempo demais.
e eu tenho dormido mal.
dormido mal, acordado mal, vivido mal. sem vontade.
"mas isso vai passar, meu bem", diz uma vozinha fraquíssima dentro de mim. e eu que só tenho mesmo é matado tempo. e muito bem matado, diga-se de passagem ou antes que alguém me chame de incompetente, porque depois que ele vai, não volta mais.
e eu bem que podia me arrepender... dormir menos, me animar mais.
na verdade até consigo, às escondidas. onde tudo acontece: debaixo das cobertas... tiros, tapas, gritos.
e o sonho se confunde com a realidade. e o sonho é a realidade viva. e o sonho é a única coisa que eu não queria ter porque a realidade é a outra única coisa que eu queria não ter de viver e presenciar. mas nem sempre, meu bem. nem sempre...
cansei de brincar de atriz de filme de bang bang em sonho. ou ser a própria guria bang bang urbana em alma, carne e osso (no sonho).
cansei de matar minha família, meus amigos; cansei de deixar eles morrerem, morrerem por minha causa ou porque eu não podia fazer nada.
cansei de morrer também... cansei de ser morta.
meu sonho é um desastre apenas.
cansei de brincar, de dormir. cansei de viver assim na sombra.
entonces, tomara que amanhã faça sol, daí eu vou, pelo menos, correr no sol e andar de balanço na pracinha...

eu tenho medo de escuro. eu tenho medo do escuro. eu já disse!, tenho medo do escuro.

11.5.04

o pai chegou com um amigo cujo o rosto não deu para ver. ambos entraram na casa, quebrando tudo.
as crianças estavam num quarto e ao ouvirem o barulho, pularam da cama assustadas. mais ou menos sabiam o quê ia acontecer.
se amontoaram todas na porta.
a mãe esperava no quarto.
o pai entrou no quarto da mãe.
agora não deu para ver muito bem, estava tudo meio nublado, vagamente lembrado...
o pai arrastou a mãe para o corredor e onde foi o amiguinho dele? bem, isso não deu pra saber porque assim que os dois entraram na casa, esse se sumiu na história.
a mãe gritava, berrava; estava desesperada. o pai puxava os cabelos dela com força e gritava coisas que assustavam as crianças quê, amontoadas do lado de dentro do quarto, tapavam os ouvidinhos apavoradas.
é bem possível que elas tenham se perguntado quem ele pensava que era. porém, ele era o pai e por mais que questionassem, jamais chegariam a uma resposta exata e/ou que correspondesse àquilo que elas queriam como resposta. também naquela idade as coisas eram mais difíceis e tudo era, por incrível que pareça, mais fácil.
- entender a vida é complicado, meninos. - a mãe lhes disse uma vez com os olhos.
pressionando as orelhas com as mãos, eles ouviam essa frase e sentiam na pele que entender a vida era realmente complicado. tão complicado quanto aqueles olhares da mãe... ou como os olhares de algum deles quase sempre.
de repente alguém empurrou com tudo a porta e entrou no quarto.
as crianças caíram.

nessa hora eu acordei, fiquei parada, não vi mais nada.
e eu não precisaria de freud para entender esse sonho. e eu também não precisaria dele para entender a vida e o quanto a vida é complicada.
é que eu aprendi isso com o meu próprio olhar...

9.5.04

um encontro casual. uma coisa dessas que podem acontecer em qualquer dia e hora.
mas foi marcado... bom, de qualquer forma, teve cara, jeito e forma de casual.
e poucas palavras, que é o que mais o descreve como tal.
uns abraços no final de tudo...
sabe, o cara também tem direito a ter saudade e tal. tem direito de ter um pouco de carinho de vez em quando. um homem não vive só de trabalho, cama e pedra. vive também de conforto, de descanço em regaços...

ele quis ficar. eu quis ir. nós fomos e nós também ficamos.
ficamos apenas.
e agora não tem muita coisa para contar. muito do que poderia haver, ficou no passado, para trás, pra não sei quando...
mas qualquer dia desses ainda pode ser possível. vê bem, ainda pode ser possível. não estou dizendo que é e nem mesmo, que seja.
uma possibilidade, pequena probabilidade, uma luzinha no fim do túnel.
e eu que achei que ela estivesse apagada... na verdade nunca achei isso de verdade.
não sei quem foi que disse ou que me disse que depois das brigas vem a rotina. a senhora rotina, que é casada com a vida, com o homem. umas das mulheres dele e um dos homens de todas as mulheres.
e eu aceitei a idéia. e eu concordei com ela.
bom, na prática nem me perguntes porque eu não saberei mesmo dizer. sou meio ruim para cálculos... 2+2 pode ser 5, a+b pode ser cde.
quer dizer, nem tudo é tão certo como 3+5=8.
as estradas têm buracos...

entonces, vamos esperar. eu vou esperar. mais um pouquinho não vai ser bem um sacrifício.
mas também só mais um pouquinho porque eu não sou feita de pau para ficar parada feito estaca.

5.5.04

vermelho vivo. vivíssimo...
e eu que pensava que estaria livre desse inferno para sempre. inferno esse, que é ainda por cima vermelho...
mas acho que o pior já passou. mas nem sei se é possível ainda um pior.
desatadamente. e acho que nem iria adiantar pôr uma rolha.
em não me lembro mais nem quantos dias, devo ter perdido quase todo o sangue do corpo. sem contar as dores horríveis e a vontade de morrer.
mas disseram que é melhor assim. disseram que assim é bom pra mim.
e como que alguém pode dizer uma coisa dessas?
ninguém nem sabe... ninguém que esteja perto.
depois daqueles remédios no ano passado foram quatorze dias seguidos. o normal é sete...
e no mês seguinte ainda teve mais.
e ainda tive que fazer todos aqueles exames horríveis e constrangedores. aquilo tudo não me levou a lugar nenhum.
e eu não sou uma pessoa melhor hoje, não sou mais mulher e menos ainda uma mulher mais feliz. pelo contrário, fiquei bem mais infeliz depois...
e perdi meu tempo.
graças à deus as coisas voltaram para o seu devido lugar. mas nem sempre, meu caro. nem sempre...
às vezes escapam, fogem das minhas mãos. na verdade, é até audácia minha dizer isso porque afinal de contas, eu não tenho controle sobre esses fenômenos da natureza feminina. e o cacete!
mas já vai acabar. pelo menos eu penso e assim espero.
uma vez ao ano não é suficiente?
bom, tomara que seja e que a minha natureza feminina pense comigo, acompanhe meu raciocínio e faça exatamente o que eu quero. eu quero nunca mais passar por isso de novo. e eu não me importo se vou ter câncer, se não vou ter filhos. nada disso. até porque eu nem tenho um marido e depois, é só arrancar umas partes do corpo...
tudo bem, eu sei que não é beeem assim, mas me deixa em paz que me sinto melhor. isso me dá nojo.
é um saco sentir nojo e dor 24 horas. agora acho que todos concordam...
e quando isso acabar, bem, aí sim vou poder me sentir eu de novo e vou ser imensamente mais feliz por isso.
acontece que eu sou sim uma guria de 17 anos de idade, assexuada e não afeminada. toma nota!

2.5.04

negligência matrimonial.
e mães sujas que batem, maltratam e descuidam dos filhos. e tudo por alguns minutos... tudo por quase, como se fossem alguns minutos.
e a mãe da mãe o que é que faz?
a avó, tão suja quanto que parece fazer bem, que até tenta, mas que não vê que não é a mãe e que não sabe como fazê-lo.
também nem sei de quem é a culpa... e bem que poderia essa ser do tio. um tio inconseqüente, um parente bobo e ao que parece, sem escrúpulos.
e eu que cheguei mais ou menos alegre, com uma enorme sacola de livros na mão e me preparando para o "papá".
e como não há lugar para conversas bonitas e tarde até agradável, boto essas informações de hoje todas no fundo de uma caixa para mais tarde, para depois, para não sei quando. agora existem coisas bem mais importantes.
e mesmo com os livros, com as tão velhas-novas, entrei em crise e me desesperei. gritei chorei. não, não pode ser!
de forma alguma, de nenhuma maneira possível. aquilo era impossível.
mas eu entrei e os olhos agora estão inchados e de um vermelho meio rosa como se não tivessem cor.
e quem é que sabe? qual a mãe que sabe a dor de perder um filho? a dor de quase perder um filho ou de saber que isso pode acontecer breve?
e mete goela abaixo porque isso não pode em hipótese alguma acontecer.
ficar primeiro atônita, sem nem lembrar e com o tempo percebendo que o maior bem já não está mais pisando no mesmo solo. e a partir daí são meses, semanas e alguns dias em que se pensa nisso direto, em que se recorda disso direto e que não se sabe o que fazer com todas essas lembranças, com aqueles bons momentos e sem saber lidar com a falta...
a traiçoeira falta que por incrível que pareça, às vezes faz falta.
a mãe que não sabe onde foi e nem para onde vai a vidinha de seu filho. seu filhinho desde pequeno. adotado, amor maior.
mas depois vem um pouco de calmaria, de silêncio e aí já quase não se pensa porque aquilo que se pensa é mínimo, sem valor e tão estúpido que nem é possível se lembrar que por um acaso da natureza se está pensando. e isso porque não importa o que aconteça, o cérebro nunca pára.
o cérebro nunca pára... mas e quanto aquele coraçãozinho pequeniníssimo ali dentro daquele corpinho igualmente pequeno e que cabe na palma da mão? e se aquela coisinha ali parar de funcionar?
mas como eu estava dizendo, depois que cessam os gritos, é melhor para ver, analisar, acreditar ou desacreditar e achar alguma coisa que possa ser feita. alguma coisa que não permita que o corpo pequenino nunca pare de funcionar. e esperar o efeito.
esperar o efeito...
o número era três. e eu fiquei feliz...
acontece que nunca tinha saído com tantas gurias em toda a minha vida.
e foi de noite, e foi legal.

no bar uma mesa, uma vestibulanda, outra vestibulanda e assistente da mãe, uma futura advogada e um pintor (que entrou de gaiato mas bem vindo na história). cerveja na mesa e copinhos cheios. conversinhas tímidas.
também, fazia tempo...
daqui a pouco um puxa-de-lá, um puxa-de-cá e eu estou na rua com a vestibulanda assistente da mãe. uma amiga... bem, sei lá porque houve aquela declaração. e eu nem sei como me senti. o diabo da guria ainda voltou no tempo...
mas nunca é tarde. pra voltar atrás, mas bom, eu não tinha porque voltar...
ela foi embora, acho que ficou com vergonha e o número feminino diminuiu para dois, o que é normal. mais o pintor.
e sem o que fazer fomos até a universidade, da qual não somos alunos, mas da qual eu serei sim senhor.
mais cerveja e eu bebo solita. num canto, num banco... e aquela fila no banheiro depois...
e eu me diverti muito e ri muito e achei especial estar ali.
e eis que do nada, mas do nada mesmo, tenho que me sentir como uma filha do rodrigo cambará ou o próprio rodrigo ou ainda e mais conveniente, simplesmente uma gonçalves teixeira.
mas foi legal. mesmo depois de ter ouvido todos os problemas existencias e de espécie "romântica" de que se tem notícia.
voltei pra casa no ônibus das 6h e falei as melhores frases da noite:
- minha mãe disse pra eu não aceitar bebida de estranhos...
- tá, então eu posso te conhecer melhor?
- minha mãe sempre disse pra eu não andar com estranhos.
e aí eu ri da cara. salvo ou não as outras coisas ainda...

mas acordei meio mal, com chumbo na boca e nos olhos. e com a pesada impressão de ter um ovo entalado na garganta.
mas o que eu gostei mais é que mesmo sem ter voz eu continuo tendo voz. de vez em quando...
e a cerveja, claro.
agora vou chamar meu amigo porque eu quero mesmo conversar...