30.4.04

Ela: Você me ama mais do que tudo?
Ele: Amo.
Ela: Paixão, paixão?
Ele: Paixão, paixão mesmo.
Ela: Mais do que tudo no mundo todo?
Ele: No mundo todo e fora dele.
Ela: Não acredito.
Ele: Faz um teste.
Ela: Eu ou fios de ovos.
Ele: Você, fácil.
Ela: Daqueles com calda grossa, que a
gente chupa o fio e a calda escorre pelo queixo.
Ele: Prefiro você.
Ela: Futebol.
Ele: Não tem comparação.
Ela: Você está caminhando, vem uma
bola quicando, a garotada grita: "Devolve tio!" e você
domina, faz dezessete embaixadas e chuta com
perfeição.
Ele: Prefiro você.
Ela: Internacional e Milan em Tóquio
pelo campeonato do mundo, passagem e entrada de graça.
Ele: Você vai junto?
Ela: Não.
Ele: Pela televisão se vê melhor!
Ela: Faz muito calor. Aí chove, aí
abre o sol, aí vem uma brisa fresca com aquele cheiro
de terra molhada, aí toca uma música no rádio e é uma
nova do Paulinho. É sexta-feira e a televisão anunciou
um Hitchcock sem dublagem para aquela noite, e o Lula
está dando certo.
Ele: Você.
Ela: Voltar a infância só para poder
pisar na lama com o pé descalço e sentir a lama fazer
squish entre os dedos.
Ele: Você, longe.
Ela: A Sharon Stone telefona e diz
que é ela ou eu.
Ele: Que dúvida. Você.
Ela: Cheiro de livro novo. Solo de
sax alto. Criança distraida. Canetinha japonesa.Bateria
de escola de samba. Lençol recém-lavado. Hora no
dentista cancelada. Filme com escadaria curva. Letra do
Aldir Blanc. Pastel de feira.
Ele: Você, você, você, você, você,
você, você, você, você e você, respectivamente.
Ela: A Sharon Stone telefona
novamente e diz que se você se livrar de mim, ela já
vem sem calcinha.
Ele: Desligo o telefone.
Ela: Fama e fortuna. A explicação do
universo e do mercado de commodities, com
exclusividade.A vida eterna e um cartão de crédito que
nunca expira.
Ele: Prefiro você.
Ela: Uma cerveja geladinha. A garrafa
chega estalando. No copo, fica com um quarto de espuma
firme.
Ele: Hummm...
Ela: Como, hummm? Ela ou eu?
...silêncio de 5 segundos...
Ele: Qual é a marca?
Ela: Seu cretino!

bom, se for polar eu troco até a alma.
tirei daqui.
e á, está chovendo. mesmo sentada nessa cadeira eu consigo sentir o cheirinho de terra e calçada gelada molhadas.

29.4.04

esses travesseiros e essas cobertas estão com o mesmo cheiro da cama dele. acho que é o sabão em pó...
e até uns seis meses atrás, não sei bem ao certo, eu ainda podia sentir o cheiro dele em mim. mais que isso, podia sentir a mão dele no meio seio direito e a boca no meio seio esquerdo.
podia sentir a boca dele na minha, a língua dele na minha e frequentemente podia sentir até mesmo o gozo também na minha boca.
podia sentir a boca, a língua, as mãos e os dedos dele em outras partes do meu corpo e podia sentir também, ele dentro de mim. forte. e era bom...
não sempre, mas às vezes... e em todas as vezes em que foi bom, verdadeiramente bom e em que eu gemi fininho, nunca eu estava realmente ali. nessas vezes todas, eu sempre estava em um outro lugar, era uma outra pessoa e ele era também outro alguém; ninguém em especial e tampouco, conhecido.
nas outras vezes, começava bom, mas dali um pouco eu parava estática e meus olhos também paravam, assim perdidos mesmo, olhando fixamente para o céu, que nada mais era além do teto do quarto. e eu não sentia nada, nada.
e ainda depois de mais ou menos seis meses, eu nem mesmo conseguia e consigo começar. às vezes até "dava o estalo inical", mas dali a pouco sentia raiva, mal estar, tristeza... e quando conseguia, logo parava e descia do ônibus, porque sabia que ele não ia me levar a lugar nenhum.
eu continuava sendo eu, ele continuava sendo ele e o lugar continuava sendo exatamente aquele em nos encontrávamos.
daí um dia... um dia sempre...
sexo é vital. entonces, já não sirvo para nada e agora só sinto meu cheiro (e ainda não sei se devo agradecer à deus por isso) além de uma pesada carência de pai.
agora eu estou aqui e ele está lá. longe... e assim talvez continue, mas também, eu nem sei...

música de fundo: múm - there is a number of small things

26.4.04

olha, eu estou morrendo de frio.
e tem mais ainda, eu não sou um peixe de caverna pra ficar sempre sem luz, até por que eu tenho um medo brabo do escuro...

entonces, me tira daqui, mas vai rápido, porque essa falta de luminosidade, de sol dentro de mim, já está me sufocando...

25.4.04

um dos piores fins de semana de que já se teve notícia...
uma briga do inferno e ninguém aqui está se preocupando. e é verdade.
mas como sempre, fui vencida pela impotência de até mesmo sentir...
uma explosão de raiva, um sono profundo, nada na barriga e daqui a pouco o despertar, o tentar manter a raiva mais forte e, embora a tristeza ainda permanecesse, a coisa funcionou como sempre: tudo na mesma como se nada tivesse acontecido.
e agora eu já nem sei se realmente aconteceu...

mas nesse fim de semana chato, frio não só na temperatura (o que é bom) mas principalmente no pensar, no pesar, no viver, no respirar mesmo porque até respirar ficou difícil.
um monte de livros e estudo, muita leitura, muita tela de computador pela frente, muitas musiquetas e nenhuma, mas nenhuma cerveja mesmo.
no lugar veio o chocolate-quente.
e agora será que alguém pode me dizer que diabo é isso?

viver é uma droga mesmo.

23.4.04

eu: - tive que ver um filho meu morrer hoje, ou melhor, quase morrer. a essa hora ele deve estar morto.
e eu ainda enrolei ele na cobertinha pra ver se ele não sentia tanto assim a dor...
mas eu me senti desmoralizada. dedicação total a eles e não adiantou...
outro: - acontece...
eu: - um a essa hora já foi ou tá indo pro saco.
na minha mão ele nem conseguia se mexer. e miava, mas não saía voz daquela boquinha...
outro: - não tá aí a minha camisa da argentina?
eu: - não.
e não faz barulho, por que na peça ao lado tem o irmãozinho que eu tô tentando fazer viver.
outro: - tri.
eu: - tri?
eu não tenho um monte de pêlos e nem tetas cheias de leite, mas é tri?
outro: - falei pelo que vai viver.
eu: - isso se viver...
outro: - vai sim.
eu: - quem me garante?
pneumonia fulminante...

daí que se deu o feriado. ou teria sido um fim de semana? bem, o certo é que foi doloroso...
mas a vida continua. e ela continua dentro duma caixinha, enrolada numa saia enorme de lã que era da mãe de uma amiga ali na garagem... na peça ao lado.

20.4.04

m...
m de muitas coisas, m de muitas palavras.
m de morrer, m de matar.
m, a segunda letra da palavra quase insignificante que é amor.
m de uma coisa tão linda que é o mar. e começa com mar uma coisa que eu não acho nada bonita...
m, sexta letra da palavra lágrimas, no plural, por que foi no plural da palavra lágrima que eu me afoguei já algumas muitas vezes.
m, segunda letra da palavra amigo.
m de mas eu não quero amizade.
m de meu bom rapaz...
m que não rima com l de lata de lixo, mas rima com n de nunca mais.
...

17.4.04

a flor estava (e andava) aparentemente inteira e intacta.
(...)
ele não enxerga no escuro.
mas também, quando está na luz ele não quer enxergar...
(...)
foi na quarta e na quinta-feira.
bom, só sei que foi num desses dois dias que a flor murchou...

música de fundo: lose it - supergrass.

16.4.04

com exceção de dois, todo mundo estava lá e aí, com exceção de mais dois, cada um ia emborcando uma cerveja atrás da outra e rindo, rindo, rindo do nada.
a minha cabeça girando, o corpo e todo o resto aberto pela a para a alegria da noite.
um ser noctívago, boêmio, ou seja lá como queira chamar.
gritando, gritando; cantando bem alto, explodindo em emoção.
felicidade geral.
aquele sentimento de proteção.
e todo mundo cantando, berrando, brincando, saltitando e brigando.
- chega lá e diz assim pra mulher: eu quero um fardo!

mas agora já nem sei, acho que foi solamente um episódio a mais, um episódio colorido, apesar das luzes laranjas e foscas da rua e da escuridão do céu noturno, e lindo. um momento apenas... muito bem aproveitado, diga-se de passagem ou antes que se diga o contrário.
mas acontece que acabou e acabou mal.
tudo uma bobagem, uma besteira, uma bobagem!
não era nem mais o efeito da cerveja, o efeito do riso e nem mesmo o efeito do confronto moral consigo mesmo, era a carne que falava por ela própria. e foi a carne que por ela mesma, deixou tudo parado, vago, paralisado.
e os olhos igualmente parados no tempo e no espaço. naquele tempo, naquele espaço.
e os olhos secos, e a carne seca, a boca seca e o sentimento seco.
mesmo com a vontade de chorar, que nem sei se era realmente sincera, mas as lágrimas também estavam secas.
mas tudo bem, não importa mais.
mando o diabo pro inferno porque aquele lá é o seu lugar. solito consigo mesmo...

14.4.04

nessa penumbra que não é penumbra.
nessa janela meio aberta com aquela área que graças a deus impede a completa passagem de luz.
nesse calor infernal em pleno o meio do mês de abril.
e com esse ventilador quase vagabundo que gira de um lado pro outro, de um lado pro outro e que assim faz balançar as folhas das revistas, as embalangens dos ovos de chocolate dependurados na estante, que faz os papéis fazerem barulho.
com os pulsos suados, atirada na cama e ouvindo gauderismo caro, nada me agrada. tudo me incomoda.
me incomoda acordar tão cedo e ter falta de ânimo e falta de ar de vez em quando.
me incomoda ter tanto para fazer...
me incomoda assim, ter um futuro que longo ou breve, pouco importa, o que importa é que ele existe e que mesmo nesse calor e debaixo desse sol desgraçado eu tenho que trabalhar nele.
e daí me incomoda mais ainda saber que não sou só eu.
que não sou só eu...
e quantos mais serão? dez? vinte? sete? bom, pelo nenos seis eu sei que vão querer seguir pelo mesmo caminho.
vai, te prepara pra guerra; te prepara para dar uma esmagada violenta por aí...
isso em pleno o mês de abril... um mês tão bonito, que era pra ser tão festivo... um mês que era pra ser fresco e caloroso, vê bem, caloroso e não quente.
vai aquele homenzinho falando no rádio, acalmando o tempo, o dia, a minha cabeça. vai falando manso com a voz bonita.
vai ele me lembrando que tem por aí uns campos verdes e floridos e que no norte do meu estado não está um seca desgraçada.
vai laia-laiando e falando bobagens. coisa boas, bonitas de verdade...
enquanto isso eu sei que vai passar, que basta eu levantar daqui, me dar um soco em memória e começar a trabalhar. trabalhar duro.
pois olha o futuro...
e ele continua falando e me faz lembrar que hoje a noite vai ter música boa e alegria.
:"bebida amarga da roça que adoça o meu coração."

cítara tocando no som; pés no chão e sem meias, para refrescar o coração...

11.4.04

num bocejo, o sono. o sono implacável e fácil, como se eu tivesse bebido álcool, cheirado éter ou tomado um desses calmantes...
;o sono de prego nos olhos, de súbito; basta deitar.
o sono que solamente acontece no leito de lá porque no de cá, nunca vem e quando vem é a conta gotas.
e como se eu tivesse ingerido litros de chá preto e café, passo noites inteiras acordada, ouvindo o silêncio, mas não o vazio da noite. os latidos longínquos, o bater de asas das moscas...
e eu daria tudo para hibernar e me perder no tempo do sono.
mas isso não acontece por aqui...
mas acontece lá, como uma forma involuntária de escapar, de fugir, de não ter que resfolegar.
e isso me deixa assim mais feliz, menos lúcida dos acontecimentos, embriagada pelo cansaço dos olhos que não querem em hipótese alguma ver, abrir, permitir...
lá é às 23h, aqui é às 5 da matina.
a diferença está na trajetória, na luta, na jornada estática e no zumbido; no tempo decorrido.
mas assim, lá pelas 5 menos 10, já não importa tanto porque de olhos fechados não faz a mínima diferença: em qualquer uma das situações e lugares, estou pseudo protegida pelo escuro.

7.4.04

será que eu tenho um lugar?
e se eu tiver, será que corro o risco de perdê-lo?
aí está a dúvida... suja, diga-se de passagem.
rainha formiga, a melhor. tudo isso é coisa do passado. a mais legal...
mas pode ser que também não tenha ficado.
pra falar a verdade, eu sinto que existo aí nuns certos corações, mas desconfio ao mesmo tempo de que não existo e que talvez nunca tenha existido.
mas hai carinhas sorridentes, olhinhos cintilantes olhando para mim às vezes. doces empurrões e tratamentos masculinizados.
o que não é para todas, mas é para algumas...
algumas quais? algumas quem?
...
e então será que eu tenho alguma espécie de exclusividade? e será que alguém passou na minha frente?
e fico assim amedrontada ao pensar e sentir uma coisa dessas.
nem é que seja inveja, ciúme, mas que simplesmente me acostumei com a idéia e, osso duro de roer, não quero ver o que já fui, acho que fui ou o que sou, se esvair por aí com o tempo que corre desesperado contra o próprio tempo ou contra o outro tempo, que determina eu não ser mais o que um dia fui, achei que fui ou sou para os magnifissíssimos que transformaram minha vida, de forma a me fazer sentir a cabeça rodar de felicidade e me fazer boba diante da alegria incontida na presença dos ditos cujo.
mas não sei...
por agora, só sei que quero, sentada no chão, arregaçar os dentes e sentir o rodopiar do vento e das estrelas internas-mentais e imaginárias, efeito de estonteante alegria causada pela não confirmação, ou seja, pela dúvida ainda dúvida e pergunta, a meu ver, não respondida.

3.4.04

um dia e tanto...
gastar dinheiro, cortar cabelo.
uma noite e tanto ou e tanta barbaridade!
umas risadinhas, umas piadinhas até que bem engraçadas, afinal de contas, nem tudo na vida é incomodação, chumbo grosso e relho no lombo. mas também nem tudo é "festa".
e aí que ainda não sei como uma pessoa pode ser tão boba...
se atira no chão, levanta do chão já sem consciência.
deita de novo e tômale chute na paleta por que do meu lado eu quero um homem.
i, mas já era tarde para tanto...
um bofe atirado no banco do ônibus, roncando. e enquanto isso, outros marmanjos brigando e largando chutes e pontapés para todos os lados no fundo do mesmo carro.
e meu deus onde foi que eu fui me meter?
antes ter ficado quietinha em casa, descansando...
mas descansando o que se meu espírito boêmio chora, grita e esperneia? pois é, também não sei.
mas até certo ponto valeu: a pança entupida de cerveja e um leve estonteamento naquela nave imunda que é o apollo.